Volta às aulas reacende debate sobre educação inclusiva e responsabilidade coletiva
Com o início de um novo ano letivo, escolas voltam a se encher de vozes, expectativas e recomeços. A volta às aulas, tradicionalmente associada a novas rotinas e aprendizados, também reacende um debate essencial para a sociedade contemporânea: a educação inclusiva e a responsabilidade compartilhada de garantir que todas as crianças tenham direito ao pertencimento, ao respeito e à aprendizagem.
Durante muitos anos, a inclusão foi tratada como uma missão quase exclusiva das escolas. Esperava-se que professores, gestores e equipes pedagógicas resolvessem, sozinhos, desafios complexos relacionados à diversidade humana. No entanto, a prática cotidiana mostra que a inclusão não se sustenta quando recai sobre poucos. Ela exige corresponsabilidade e começa muito antes do portão da escola.
O processo inclusivo nasce no ambiente familiar, nas conversas do dia a dia, nos exemplos dados às crianças e na forma como as diferenças são explicadas, acolhidas e valorizadas. Famílias típicas, mesmo aquelas que não convivem diretamente com a deficiência, têm papel decisivo na formação de uma cultura de respeito. Orientar os filhos para conviver com a diversidade é um passo fundamental para construir ambientes escolares mais empáticos e humanos.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer os desafios enfrentados pelas famílias atípicas. Para muitas delas, o retorno às aulas não envolve apenas cadernos e mochilas, mas também diagnósticos, terapias, laudos, burocracias e o medo constante de ter direitos básicos questionados. Ainda hoje, essas famílias são frequentemente obrigadas a justificar por que seus filhos aprendem de forma diferente — e por que merecem as mesmas oportunidades.
Nesse contexto, a figura da mãe atípica se torna emblemática. Uma mulher que enfrenta noites sem dormir, consultas intermináveis, explicações repetidas e medos silenciosos. Antes do diagnóstico, antes do comportamento e antes da diferença, existe uma mãe que ama, luta e se cansa, mas que segue exigindo respeito e dignidade para seu filho. Enxergar essa realidade é compreender que a inclusão não é um favor, mas um compromisso ético e coletivo.
A escola, por sua vez, muitas vezes se vê no papel de mediadora de conflitos que não criou. Crianças reproduzem comportamentos aprendidos fora do ambiente escolar, e a ausência de diálogo e orientação em casa acaba transferindo para a escola a responsabilidade de ensinar valores que deveriam ser construídos de forma compartilhada entre família, comunidade e instituição de ensino.
Educação inclusiva não significa ausência de desafios. Crianças aprendem em ritmos diferentes, comunicam-se de formas diversas e expressam emoções de maneira singular. Reconhecer essas diferenças não fragiliza o processo educativo — ao contrário, o fortalece. Uma escola inclusiva é aquela que cria caminhos, oferece apoios e reconhece potencialidades, mas ela não pode e não deve caminhar sozinha.
Diante disso, a pergunta central precisa ser enfrentada com honestidade: de quem é a responsabilidade pela inclusão? A resposta é clara e, ao mesmo tempo, desafiadora. A inclusão é responsabilidade da escola, sim. Mas também é da família, da comunidade e de todos que participam do processo educativo. É um compromisso coletivo que envolve escolhas diárias, atitudes conscientes e empatia em ação.
A verdadeira educação inclusiva se consolida quando famílias típicas e atípicas deixam de ocupar lugares opostos e passam a caminhar juntas. Quando o julgamento dá lugar ao diálogo, a escuta substitui o preconceito e a empatia se transforma em prática. É nessa união que a escola se fortalece, que as crianças aprendem pelo exemplo e que a inclusão deixa de ser uma luta isolada para se tornar um valor social compartilhado.
Neste retorno às aulas, o convite é para que a comunidade escolar entre não apenas com materiais e expectativas, mas com um olhar mais atento e um coração mais aberto. Que cada família reconheça no outro alguém que também está tentando, aprendendo e avançando à sua maneira. Porque a volta às aulas não é apenas o início de um novo período letivo — é a oportunidade de recomeçar juntos e de decidir, conscientemente, que tipo de sociedade estamos ensinando nossas crianças a construir.
Sharlene Serra é escritora e educadora, autora da Coleção Incluir. Atua na promoção da literatura e da educação inclusiva, desenvolvendo projetos que unem palavra, escuta e responsabilidade social. É fundadora e presidente da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil (AMLIJ).
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