Após TSE barrar candidatura de Arruda, direção do partido discute adesão a Celina Leão, mas enfrenta resistência de candidatos e lideranças
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que barrou definitivamente a candidatura de José Roberto Arruda ao Governo do Distrito Federal abriu uma nova crise dentro do PSD-DF. Sem o principal nome da legenda na disputa pelo Palácio do Buriti, o partido corre contra o tempo para definir uma estratégia eleitoral — e a possibilidade de apoiar a candidatura de Celina Leão expôs divergências entre dirigentes, candidatos e aliados de Arruda.
A direção do PSD-DF se reuniu nesta sexta-feira (25) para discutir os próximos passos. O presidente regional da legenda, Paulo Octávio, confirmou a convocação das reuniões e indicou que a tendência é de aproximação com Celina. A decisão, no entanto, ainda enfrenta resistência interna.
“A tendência é de apoio a Celina”, afirmou Octávio ao Jornal de Brasília. O dirigente ressaltou, porém, que as discussões estão sendo conduzidas internamente e que opiniões divergentes serão consideradas. O prazo para a definição da legenda termina neste domingo.
A mudança representa uma guinada em relação à estratégia adotada durante a campanha de Arruda. O ex-governador havia construído sua candidatura como uma alternativa de oposição ao grupo político de Celina e do governador Ibaneis Rocha (MDB), tendo como alvos frequentes temas como a gestão do Banco de Brasília (BRB), a privatização da CEB e os indicadores de Saúde e Educação do Distrito Federal.
Com Arruda fora da disputa, o PSD passa a concentrar sua atenção na eleição de bancadas para a Câmara dos Deputados e para a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Nesse cenário, o apoio a Celina aparece para parte da direção como uma forma de preservar espaço político no Executivo local e, simultaneamente, fortalecer as candidaturas proporcionais.
Resistência dentro do próprio partido
A tentativa de reorganização, entretanto, esbarra em uma ala do PSD que mantém compromisso político com Arruda.
Uma das principais vozes contrárias à aproximação com Celina é a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia, candidata à Câmara dos Deputados. Integrante da mesma corrente política ligada ao legado de Joaquim Roriz, Abadia afirmou que não pretende apoiar Celina.
“Eu não apoiarei a Celina. Se fecharem questão nesse ponto, vou concorrer como independente”, declarou.
A manifestação evidencia o tamanho do desafio da direção partidária. Abadia e Arruda, que foram adversários na disputa pelo governo do Distrito Federal em 2006, haviam se unido nesta eleição em uma composição política que buscava reunir diferentes setores do grupo ligado ao ex-governador Joaquim Roriz.
A candidata também criticou a distribuição de recursos de campanha. Segundo ela, recebeu R$ 500 mil para a disputa pela Câmara Federal, valor que considera insuficiente diante de sua trajetória política.
“Eu sou Arruda”, diz Carol Fleury
Outra candidata do PSD à Câmara Federal que rejeita a aproximação com Celina é Carol Fleury.
Ligada politicamente a Ronaldo Caiado, Fleury ocupou a Secretaria do Entorno no governo de Goiás e se aproximou de Arruda durante a campanha ao Palácio do Buriti. Ela também participou de diversas atividades ao lado do ex-governador.
“Não consigo, não tem jeito. Eu sou Arruda, sou esse elo, vim ser candidata pela relação entre Arruda e Caiado”, afirmou.
A posição de Fleury acrescenta uma dimensão nacional à disputa interna. O PSD lançou Ronaldo Caiado à Presidência da República, enquanto Celina declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Paulo Octávio, contudo, afirma que as duas questões devem ser tratadas separadamente.
“Nós não estamos discutindo Flávio, estamos discutindo apoio a Celina. O pessoal nosso vota no Caiado, o partido continua alinhado com o Caiado”, disse.
Segundo o dirigente, a direção nacional do PSD acompanha as decisões tomadas pela executiva do Distrito Federal.
Reunião expõe divergência sobre apoio a Celina
A maior demonstração de resistência teria ocorrido entre os candidatos à Câmara Legislativa.
Segundo apuração do Jornal de Brasília, os 25 candidatos do PSD à CLDF participaram de uma reunião na qual a proposta de apoio a Celina teria recebido 23 votos contrários e duas abstenções.
Paulo Octávio, entretanto, não confirmou o resultado.
“Não confirmo, porque sei do resultado dessa reunião. Os distritais que quiserem se manter independentes têm direito a isso”, afirmou.
A declaração mantém aberta a possibilidade de que candidatos do partido adotem posições diferentes durante a campanha, mesmo diante de uma eventual decisão da direção regional.
Em relação aos candidatos à Câmara Federal, Octávio afirmou que seis dos oito nomes devem acompanhar a orientação partidária. As exceções, neste momento, seriam Abadia e Fleury.
Arruda mantém influência mesmo fora da disputa
Apesar de ter sido retirado oficialmente da corrida ao Buriti, Arruda ainda exerce influência sobre uma parcela das candidaturas do PSD.
Após a reunião partidária, alguns candidatos à CLDF foram à residência do ex-governador, na Asa Sul, para reafirmar apoio político. Conforme apurou o Jornal de Brasília, Arruda gravou vídeos pedindo votos para candidatos do partido e se colocou à disposição para participar de atividades de campanha.
A estratégia busca transformar o capital político construído pelo ex-governador durante a campanha em votos para os candidatos proporcionais da legenda.
O movimento também mostra que a retirada de Arruda da disputa não encerrou sua participação política no processo eleitoral. Ao contrário, seu apoio pode se tornar um dos elementos centrais da disputa interna que agora divide o PSD-DF.
O desafio de Paulo Octávio
A direção do PSD-DF terá de conciliar interesses distintos em um intervalo curto.
De um lado, existe a necessidade de definir uma posição para a disputa pelo governo e organizar uma estratégia capaz de fortalecer a legenda nas eleições proporcionais. De outro, há candidatos que construíram suas campanhas justamente a partir da oposição ao grupo de Celina e Ibaneis e que resistem a uma mudança abrupta de discurso.
A situação é ainda mais complexa porque a legenda possui, no plano nacional, candidatura própria à Presidência da República. No Distrito Federal, porém, uma parcela do grupo político que pode se tornar aliada do PSD apoia outro candidato ao Planalto.
Por enquanto, Paulo Octávio sustenta que a prioridade é resolver a questão local. A tendência de apoio a Celina está colocada, mas a extensão desse apoio e o grau de unidade que o PSD-DF conseguirá alcançar ainda permanecem em aberto.
Com Arruda fora das urnas, a disputa agora ocorre também dentro do próprio partido. E o desfecho dessa queda de braço poderá determinar não apenas o posicionamento do PSD no segundo trecho da campanha, mas também a capacidade da legenda de transformar sua estrutura e seus nomes em uma bancada competitiva no Distrito Federal.
