Neurodiversidade: onde a mente encontra seus próprios caminhos


Por, Sharlene Serra

Durante muito tempo, aprendemos que inteligência tinha forma fixa. Sentava direito, respondia rápido, seguia instruções, cabia em provas, quadros e planilhas. Quem escapava desse desenho logo recebia um rótulo: distraído, lento, impulsivo, difícil.

Mas algumas mentes nunca aceitaram andar em linha reta. Elas pensam em espiral, em saltos, em imagens, em sons, em movimentos. Percebem detalhes que passam despercebidos, criam conexões improváveis, aprendem de maneiras que não cabem em um único modelo. Não porque falte algo nelas, mas porque funcionam de outro jeito.

E a ciência hoje confirma: não existe um cérebro padrão. Independentemente de condição, diagnóstico ou classificação clínica, cada pessoa processa informações, organiza pensamentos e constrói aprendizagens de forma singular. O que muda não é a capacidade de aprender, mas o caminho neural por onde essa aprendizagem acontece.

Na verdade, aquilo que muitos rotulam como dificuldade pode esconder pontos fortes: criatividade, humor inesperado, capacidade de conectar ideias que parecem afastadas, visão intuitiva e até o hiperfoco,  um estado de concentração profunda que permite mergulhar intensamente em temas que despertam interesse e sentido. Essas características, hoje reconhecidas como expressões da neurodiversidade, representam formas legítimas de funcionamento cognitivo, que se desenvolvem plenamente em ambientes compreensivos e acessíveis.

Quando essa singularidade é reconhecida, algo fundamental acontece: a autoestima se fortalece, a ansiedade diminui e a aprendizagem encontra sentido. Cuidar da diversidade cognitiva é, também, cuidar da saúde mental.

A neurodiversidade nos ajuda a compreender exatamente isso: existem múltiplas formas de perceber e compreender o mundo. Pessoas com TDAH, autismo, dislexia, discalculia, altas habilidades, deficiência intelectual, entre outras condições, não compartilham um único modo de pensar; compartilham o fato de não caberem em um modelo único de inteligência. Mas essa verdade vai além dos diagnósticos.

Mesmo entre pessoas sem qualquer classificação clínica, o cérebro aprende de maneiras distintas: alguns precisam de repetição, outros de contexto; alguns aprendem pelo corpo, outros pela emoção; alguns pela lógica, outros pela imagem. A diversidade cognitiva é a regra, não a exceção.

É aqui que o olhar precisa mudar. Howard Gardner já nos direciona que não existe apenas uma inteligência, mas múltiplas inteligências: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal, naturalista. Cada pessoa combina essas habilidades de maneira única. Quando insistimos em medir todos com a mesma régua, não revelamos limites individuais, apenas ignoramos potencialidades.


Podemos pensar numa analogia simples e poderosa: se julgarmos um peixe pela sua capacidade de voar, nós iremos considerá-lo incapaz. O erro não está no peixe, mas no critério adotado. Coloque-o na água e ele revelará uma inteligência plenamente ajustada ao seu ambiente. Com os seres humanos, não é diferente. Avaliar todos pelo mesmo padrão é ignorar a riqueza dos seus ambientes cognitivos.

Compreender a neurodiversidade não significa negar desafios. Algumas condições exigem apoio, adaptações, acompanhamento e cuidado contínuo. Mas reconhecer as especificidades não é reduzir o sujeito ao diagnóstico. É entender que cada pessoa precisa de estratégias próprias para aprender, trabalhar, se relacionar e se expressar. E, assim como o peixe não é feito para voar, não podemos medir todas as mentes pelo mesmo voo. Avaliar cada pessoa pelo seu próprio ambiente cognitivo é o que nos permite descobrir suas verdadeiras capacidades.


A verdadeira inclusão acontece quando deixamos de perguntar “o que falta?” e começamos a perguntar “como você aprende?”.


Ninguém é o que lhe falta. Somos, sobretudo, o conjunto de habilidades que emergem quando somos vistos por inteiro. Cada mente carrega sua própria geografia. Algumas são retas. Outras, sinuosas. Algumas constroem pontes. Outras, atalhos. E quando aprendemos a respeitar esses caminhos, entendemos que a diversidade cognitiva, presente em todos nós, não é um obstáculo ao desenvolvimento humano, mas uma de suas maiores riquezas.


Nesse sentido, o educador e psicólogo Thomas Armstrong, Ph.D., Diretor Executivo do Instituto Americano de Aprendizagem e Desenvolvimento Humano, amplia esse olhar ao defender a neurodiversidade aplicada à educação. Em sua obra Neurodiversidade, Armstrong propõe uma mudança fundamental: deixar de organizar a escola a partir dos déficits e passar a construí-la a partir dos potenciais. Para ele, ambientes escolares saudáveis são aqueles que reconhecem diferentes formas de aprender, ensinar e demonstrar conhecimento, criando condições para que cada mente encontre caminhos próprios de desenvolvimento. Não se trata de baixar expectativas, mas de mudar o ponto de partida: do que falta para o que pode florescer.


Talvez o maior erro que cometemos ao falar de inteligência seja insistir em uniformidade onde a natureza escolheu diversidade. A pluralidade neural não é um desvio do caminho humano, ela é o próprio caminho. Cada cérebro, com suas curvas, pausas, intensidades e ritmos, revela uma forma legítima de existir, aprender e contribuir. Quando reconhecemos isso, deixamos de tentar corrigir mentes para começar a escutá-las.


Ao acolher a pluralidade neural, não ampliamos apenas as possibilidades de aprendizagem. Ampliamos a humanidade.


Hoje, reconhecer a pluralidade neural é um gesto urgente. Em um tempo que acelera, padroniza e exige respostas rápidas, escolher escutar os diferentes ritmos do pensar é um ato de consciência. Não se trata de preparar pessoas para caber no mundo, mas de preparar o mundo para existir com elas. Respeitar a diversidade cognitiva é um exercício de humildade coletiva: admitir que não existe um centro único a partir do qual todos devem se orientar. Existem, sim, múltiplos mapas mentais coexistindo, cada um com sua lógica interna, sua beleza, seu valor e suas habilidades.

 E falando em habilidades, deixo a minha em forma de poesia:


PLUNEURAL


Não me peça linha reta

Há mentes que chegam cedo.

Outras chegam fundo.


Há quem pense em palavras,

há quem pense em imagens,

há quem pense em silêncio.

Na diversidade do mundo.


Não me peça linha reta

quando meu pensamento se dobra,

faz curvas, insiste

retorna



Meu tempo não é atraso.

É ritmo.


Alguns aprendem ouvindo.

Outros, tocando.

Outros, sentindo 


Não me chame de desvio.

Sou percurso.


Minha atenção se move.

Meu foco mergulha.

Minha lógica cria caminhos

Meu cérebro alterna 

calmaria ou fagulha


Não me meça antes de me escutar.

Não me explique antes de me compreender.


Há inteligência no detalhe,

na pausa,

no excesso,

na insistência.


Quando o olhar se amplia,

eu apareço inteiro.


É presença.

pluralidade neural

existente em nós.

É o ser humano em

 estado verdadeiro.


Sharlene Serra

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