A menos de uma semana do vencimento do último grande tratado de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, o mundo volta a conviver com o risco concreto de uma nova corrida armamentista. Caso não haja um acordo de última hora, os dois países poderão começar a implantar mísseis adicionais de longo alcance equipados com ogivas nucleares, rompendo um ciclo de mais de meio século de restrições mútuas sobre seus arsenais estratégicos.
O novo tratado START, que expira em 5 de fevereiro, limita o número de ogivas nucleares estratégicas a 1.550 para cada país, além de estabelecer um teto de 700 mísseis e bombardeiros capazes de lançá-las por terra, mar ou ar. Com o prazo se esgotando, o presidente russo Vladimir Putin propôs a manutenção temporária desses limites por mais um ano, como forma de ganhar tempo para discutir um novo acordo. Até o momento, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não respondeu formalmente à proposta.
A indefinição ocorre em meio a um cenário internacional mais complexo e instável do que aquele que levou à assinatura do tratado original, em 2010. Analistas alertam que, sem um acordo, Washington e Moscou ficariam, pela primeira vez desde a Guerra Fria, sem qualquer mecanismo que limite o tamanho e a capacidade destrutiva de seus arsenais estratégicos — armas capazes de atingir capitais, bases militares e centros industriais em um eventual conflito nuclear.
Especialistas em segurança ressaltam que os tratados nucleares vão além da simples fixação de números. Eles funcionam como instrumentos de transparência, previsibilidade e comunicação, reduzindo o risco de interpretações equivocadas e escaladas não intencionais. Com o possível fim do novo START, esses canais de diálogo estratégico praticamente desaparecem, aprofundando a desconfiança entre as potências.
A situação é agravada por mudanças profundas no equilíbrio global de poder. A Rússia desenvolveu novos sistemas com capacidade nuclear que não estão contemplados pelo tratado atual, incluindo mísseis de cruzeiro de alcance praticamente ilimitado, armas hipersônicas e torpedos nucleares submarinos. Do lado americano, Trump anunciou planos para um ambicioso sistema de defesa antimísseis baseado no espaço, visto por Moscou como uma tentativa de alterar o equilíbrio estratégico em favor dos Estados Unidos.
Outro fator central no debate é a ascensão da China como potência nuclear. Embora Pequim ainda possua um arsenal menor do que o de EUA e Rússia, estimativas do Pentágono indicam que o número de ogivas chinesas pode ultrapassar a marca de mil até 2030. Washington vê esse crescimento como uma ameaça estratégica, enquanto a China argumenta que não faz sentido participar de negociações de desarmamento com países que possuem arsenais muito superiores.
Dentro dos Estados Unidos, o tema divide políticos e especialistas. Defensores do controle de armas afirmam que o país já enfrenta enormes desafios com o programa de modernização de suas forças nucleares, que inclui novos submarinos, bombardeiros e mísseis balísticos intercontinentais. O custo estimado desse esforço chega a quase um trilhão de dólares entre 2025 e 2034, pressionando ainda mais o orçamento público.
Já críticos de qualquer extensão do tratado argumentam que os Estados Unidos não devem confiar na Rússia, lembrando que Moscou suspendeu inspeções previstas no novo START em 2023, em meio às tensões provocadas pela guerra na Ucrânia. Para esse grupo, o país precisa se preparar para ampliar seu arsenal, ainda que de forma gradual, para responder aos desafios simultâneos impostos por Rússia e China.
Relatórios recentes do Congresso americano classificam o cenário atual como um “desafio existencial”, com a possibilidade inédita de dissuasão nuclear frente a dois grandes rivais ao mesmo tempo. Entre as recomendações está a reativação de ogivas retiradas de mísseis e o retorno de bombardeiros estratégicos a missões nucleares.
Enquanto isso, autoridades russas afirmam estar preparadas para qualquer desdobramento. O discurso oficial indica que novas ameaças à segurança nacional serão respondidas de forma firme, reforçando a percepção de que a corrida armamentista, especialmente em áreas como tecnologias hipersônicas e armas de alta precisão, já está em curso.
Sem um acordo iminente, o mundo observa com apreensão a possibilidade de um retorno a uma era de competição nuclear sem regras claras, marcada por maior instabilidade, custos bilionários e riscos elevados para a segurança global.
Fonte:cnnbrasil.com.br
